DA ARTE DE SER FILHO DA PUTA
(Os Contos Canalhas)
I - O FUTURO É FLÁCIDO
"Um dia ela vai fazer cinqüenta e três (apesar de tudo ela chega lá). E não demora muito, trinta e poucos anos podem passar de hoje pra amanhã. E então o seu olho já não tem mais brilho nem o seu cabelo é mais macio pra passar a mão (tudo cai um dia). Nesses anos todos ela vai ter me trocado por vinte e sete caras (isso porque eu conto só os que eu vi, de ser testemunha). E sempre tinha um perdido por perto pra ela preferir (não é à toa que as únicas vezes em que a gente esteve realmente juntos foi quando não tinha mais ninguém por perto). A última vez que ela me trocou foi na mesma churrascaria (olha só), ela já com cinqüenta anos e aceitando a cantada do coroa de camisa aberta no peito, óculos escuros e barriga de despachante. Não, eu não tinha chegado com ela (só olhava a cena de longe, de minha mesa, com a minha terceira mulher), mas ela sabia que eu estava lá. A gente nunca chegava junto aos lugares, os encontros eram casuais e, quando eu tinha sorte, a gente ia embora juntos (ela me deixava levá-la pra casa). Agora, com cinqüenta e três, dois anos de seca, ela passava a me olhar de um jeito esquisito, diferente do olhar que me atraía tanto, que me provocava. Naquele outro dia, no bar, tomei coragem e me fixei nos olhos dela, quatro segundos (ou menos) e vi uma expressão (pela primeira vez nela) que já tinha visto tantas vezes nos olhos das outras. Ela me amava - aos cinqüenta e três, ela me amava. Debaixo das rugas e dos peitos flácidos e das olheiras ela me amava com um olhar cansado mas sincero. Então eu fiquei tranqüilo porque tinha terminado. Agora era partir pra outra."
(Os Contos Canalhas)
I - O FUTURO É FLÁCIDO
"Um dia ela vai fazer cinqüenta e três (apesar de tudo ela chega lá). E não demora muito, trinta e poucos anos podem passar de hoje pra amanhã. E então o seu olho já não tem mais brilho nem o seu cabelo é mais macio pra passar a mão (tudo cai um dia). Nesses anos todos ela vai ter me trocado por vinte e sete caras (isso porque eu conto só os que eu vi, de ser testemunha). E sempre tinha um perdido por perto pra ela preferir (não é à toa que as únicas vezes em que a gente esteve realmente juntos foi quando não tinha mais ninguém por perto). A última vez que ela me trocou foi na mesma churrascaria (olha só), ela já com cinqüenta anos e aceitando a cantada do coroa de camisa aberta no peito, óculos escuros e barriga de despachante. Não, eu não tinha chegado com ela (só olhava a cena de longe, de minha mesa, com a minha terceira mulher), mas ela sabia que eu estava lá. A gente nunca chegava junto aos lugares, os encontros eram casuais e, quando eu tinha sorte, a gente ia embora juntos (ela me deixava levá-la pra casa). Agora, com cinqüenta e três, dois anos de seca, ela passava a me olhar de um jeito esquisito, diferente do olhar que me atraía tanto, que me provocava. Naquele outro dia, no bar, tomei coragem e me fixei nos olhos dela, quatro segundos (ou menos) e vi uma expressão (pela primeira vez nela) que já tinha visto tantas vezes nos olhos das outras. Ela me amava - aos cinqüenta e três, ela me amava. Debaixo das rugas e dos peitos flácidos e das olheiras ela me amava com um olhar cansado mas sincero. Então eu fiquei tranqüilo porque tinha terminado. Agora era partir pra outra."
