novembro 13, 2003

DA ARTE DE SER FILHO DA PUTA
(Os Contos Canalhas)

I - O FUTURO É FLÁCIDO

"Um dia ela vai fazer cinqüenta e três (apesar de tudo ela chega lá). E não demora muito, trinta e poucos anos podem passar de hoje pra amanhã. E então o seu olho já não tem mais brilho nem o seu cabelo é mais macio pra passar a mão (tudo cai um dia). Nesses anos todos ela vai ter me trocado por vinte e sete caras (isso porque eu conto só os que eu vi, de ser testemunha). E sempre tinha um perdido por perto pra ela preferir (não é à toa que as únicas vezes em que a gente esteve realmente juntos foi quando não tinha mais ninguém por perto). A última vez que ela me trocou foi na mesma churrascaria (olha só), ela já com cinqüenta anos e aceitando a cantada do coroa de camisa aberta no peito, óculos escuros e barriga de despachante. Não, eu não tinha chegado com ela (só olhava a cena de longe, de minha mesa, com a minha terceira mulher), mas ela sabia que eu estava lá. A gente nunca chegava junto aos lugares, os encontros eram casuais e, quando eu tinha sorte, a gente ia embora juntos (ela me deixava levá-la pra casa). Agora, com cinqüenta e três, dois anos de seca, ela passava a me olhar de um jeito esquisito, diferente do olhar que me atraía tanto, que me provocava. Naquele outro dia, no bar, tomei coragem e me fixei nos olhos dela, quatro segundos (ou menos) e vi uma expressão (pela primeira vez nela) que já tinha visto tantas vezes nos olhos das outras. Ela me amava - aos cinqüenta e três, ela me amava. Debaixo das rugas e dos peitos flácidos e das olheiras ela me amava com um olhar cansado mas sincero. Então eu fiquei tranqüilo porque tinha terminado. Agora era partir pra outra."
Frustração
Ontem eu percebi que nunca mandei ninguém se foder. Nunca. Parece estranho, principalmente porque tem gente que não passa um dia sem pelo menos mandar a sério uma pessoa se foder - sem contar o que se diz brincando. Hoje isso é normal normal pra qualquer coisa que desagrade, pra qualquer brincadeira. Tão comum que a expressão até perdeu um pouco da contundência. Mas acho que no meu caso, se eu falasse, ia ter um significado mais forte.

Também nunca mandei ninguém pra puta que o pariu. E acho que nem vou mandar. Saiu de moda (sabe anacronismo?), não soa bem, hoje, mandar alguém pra puta que o pariu. Mesmo porque, hoje em dia, um xingamento de cinco palavras e sete sílabas é totalmente fora de contexto: "vai-pra-pu-ta-queo-pa-riu". No tempo em que trocar idéia é trocar sílabas, tipo "tipo", "só" e "na boa", dizer "vai pra puta que o pariu" até cansa a língua, tá ligado? Acho que já ouvi até meu pai mandar alguém pra puta que o pariu ("vai se foder" eu nunca ouvi ele dizendo), tem mais a ver com a idade dele.

E tem também a versão castiça, mandar "à puta que o pariu". E quando eu tava ontem pensando isso no chuveiro (eu penso muito em coisas complexas quando tô tomando banho), então, ontem no banho fiquei em dúvida sobre como é o plural. Como é que se manda uma porção de gente pra puta que o pariu? É só uma dúvida acadêmica, claro. Porque no colquial as palavras não flexionam: é "vocês tudo vai pra puta que o pariu!" e pronto. Mas a norma culta manda colocar todos os ss. Seria "vão para a puta que os pariu"? Ou "vão para a puta que lhes pariu?". Esse caso só vale pra irmãos, porque, como dá pra notar, a puta que os pariu é a mesma - quer dizer que tá xingando filhos da mesma mãe. No caso de famílias diferentes tinha que ser "vão para as putas que os pariram". Feio. Lembrei que já mandei alguém tomar no cu, mas foram poucas vezes.

novembro 12, 2003

Agora tá na hora de dormir. Tô com sono e tenho que acordar cedo. Quem sabe entre uma coisa e outra o mundo acaba e aí resolve tudo de uma vez. Falou.

novembro 11, 2003

E agora?
Fodeu

novembro 10, 2003

Orquestra dos Mortos

Orchestra of the dead. Woodcut by Michael Wolmegut, from Hartmann Schedel's Liber Chrnicarum, printed by Anton Koberger, Nuremberg, 1493.
E na segunda Antártica...
Aí aparece um carreteiro mentiroso, já meio chapado, chegando de viagem de São Paulo, que entra no Bar Brasil sábado de noite, senta no balcão e me pede uma "quente". Achou que eu era do bar. Depois de pedir desculpa umas quinze ou vinte vezes ("é que eu não conheço a casa") o sujeito fica me alugando mais de meia-hora, filosofando, "porque meu pai foi delegado e eu tenho dois irmãos na polícia". "Sou um cara correto, né?, então eu acho que as pessoas têm que ser certas comigo". "Ninguém é melhor do que ninguém, cê tá entendendo?". "Aqui meu registro na firma, e tá aqui minha certidão de casamento. Porque quem fala tem que provar, não tem?". "Não devo nada pra ninguém, não. Não sou pior do que ninguém só porque eu sou preto". "Desculpa alguma coisa aí, hein?". "O pessoal acha que eu tô bêbado mas eu acabei de começar a beber". "Eu acabei de começar a beber". "Porque eu bebo, mas porque eu tenho dinheiro pra pagar". "Não sou nenhum bêbado, não". Depois de uns cinco segundos de silêncio e de ameaçar ir embora duas vezes, olha pra mim e diz: "Paga uma aí pra mim, vai". Mala. "Tenho mulher e filho, nunca experimentei droga, não. Mas um dia eu quero experimentar. Qual você queria experimentar? Eu queria experimentar pedra, tá sabendo? Mas nunca tomei nada disso não". Mais dez segundos de silêncio, chega a cabeça mais perto e fala sussurrando: "Vamo descolá uma fita, aí. Sabe onde a gente descola por aí? Porque tem o escritório da firma aqui em Londrina". E o Renato do lado, só ouvindo e comentando uma ou outra coisa. "E aí, hein? Uma fita aí...". Depois de eu convencer o chato de que naquela noite não dava não, que eu tinha que acordar cedo domingo, ele foi embora. A droga atrapalha a minha vida, cada dia eu percebo isso melhor.
Como diz o Fernando, caralho!, caralho!, tenho uma porção de coisa pra fazer hoje à tarde. Matéria, trabalho da faculdade, projeto do Rosinaldo (às duas da manhã, em alguma casa de tango, alguém vai lembrar dos nossos velhinhos) trabalho-trabalho, livro de leitura obrigatória, arrumar o carro, renovar a carteira de motorista e muito mais. Agora fiquei em dúvida e não sei se eu durmo ou se eu jogo umas duas partidas de Age of Empires. Foda.
102

- Centro bíblico, boa tarde.
- Ah... [desliga].

(...)

- O Kenji tá ai?
- Não, não está.
- ... ãh... mas é da casa do Kenji?
- Não, não é da casa do Kenji.

(...)

E o telefone tocou naquele dia. Era engano - mas isso ela só disse duas semanas depois, por email.