O futuro do St. Daime está em se expandir para as colônias naturistas.
dezembro 10, 2004
A pira, ainda não me definiram o que é uma pira. Acho que "pira" é uma interjeição, tipo "ai!", "eita!", "uia!" e "caralho!". "Que pira..." (notem as reticências em vez da exclamação) na verdade não quer dizer absolutamente nada. Interjeição pra quebrar o silêncio, porque a sociedade moderna não tolera o silêncio, o silêncio é o primo pobre da comunicação. O silêncio. É o primo pobre da sociedade. Eu não tô tendo uma pira agora, isso chama "insônia induzida". O ano que vem, também não acredito que exista. 2005, data mais inverossímel, parece zoos. Zóos, zôos. Se fosse 20105 seriam os zóios. Ano que vem uma porção de gente vai deixar de existir. E eu nem aproveitei nada delas. Gente que some, tipo um isqueiro cheio jogado fora. Quase ninguém joga isqueiros cheios fora. Mas a gente se perde de uma porrada de pessoas sem conhecer um pedacinho sequer das tripas delas. Elas acabam indo sem a gente passar nem uma noite inteira no bar falando merda. Dissecar, rasgar e ver o que tem por dentro. Me dá uma puta sensação de desperdício. Eu tô falando sério, não faz essa cara, não tira sarro não.
Amanhã tem mais. Se houver amanhã, porque agora já é hoje. Agora sempre é hoje, uma baita falta de criatividade. Uma coisa do inevitável: ele sempre acaba rolando. E como diria o (por onde anda?) Bruno: "no final as coisas sempre acabam dando certo". E tem coisas que no final sempre acabam dando. E tem coisas que no final sempre acabam. Essas são as mais comuns.
Agora chega, porque chega. Sinceridade é um treco que também não existe, tipo os argentinos. A gente fala o que tá a fim de falar, nada disso de dizer o que tá sentindo. Porque quem sabe, de verdade, o que sente? Rola mesmo é um impulso. Quer dizer, uma porrada de impulsos, de "ímpetos" - pra empurrar ou frear. O que acontece - pelo menos é o que eu sinto - é que ganha o impulso mais forte.
Tempo, às vezes eu tenho do tempo uma impressão errada. Acho que o tempo não passa e que tudo é igual a um jogo de computador. Se você tentou e não conseguiu é só dar reset e jogar de novo. Todo o tempo do mundo. Oportunidades descartadas porque achei que não era o momento, ou que podia rolar em circunstâncias melhores (pra mim). Não rola, aliás, quase nunca. Por isso eu não xingo o álcool, amigo-da-onça, pai de todas as cagadas. Mas, ainda assim, único cara que tem a moral de me empurrar pra frente. Tá, um passo pra frente e você não tá mais no mesmo lugar - tá pisando no pé da garotinha indie encostada no balcão. Uns passos trôpegos de madrugada e eu tava sempre de volta pro mesmo lugar, escuro, fumaça, Strokes. Um passo pra frente de noite são dois pra trás no dia seguinte. Mas a marca da pegada fica, não apaga. Noite, à noite todos os gatos são atropelados. Triste isso.
Noites felizes, hoje foi uma noite feliz. Não é porque a gente tá quase no natal (mas tenho que escrever alguma coisa), o clima tava bom, o ambiente tava bom; choveu e o pessoal apareceu. Tenho que escrever alguma coisa porque o comprimido - que caiu no chão sujo no meio da festa e quase sumiu - foi pra goela e desceu a faringe? até o meu ânimo (quem diria o ânimo fica na barriga?). O termômetro bateu quarenta e dois e não baixa. Não baixa por causa de uma coisa simples. Não é psicológico nem nada, é só qui-mi-co. Reação. São sete e oito da manhã, o efeito já tem mais de seis horas. Quem me disse uma vez que durava cinco? Mas ainda não disse por que foi uma noite feliz. Isso interessa? Na verdade eu não posso dizer (não poderia). Porque a pílula não derreteu o desconfiômetro, pulsando, pulsando. Super-Ego? Sei lá, tá mais pra covardia. Desejo reprimido dá cadeia? Engraçado como eu pensava, dirigindo aqui pra casa depois do sol nascer, antes fiz a ronda, última peneirada matinal pra ver se rolava alguma balada rolando. Engraçado como fiz isso uma porrada de vezes em outras ocasiões, desespero de causa atrás de uma prorrogação à luz do dia, mas incrível como eu nunca encontrei. Acho que é porque eu não sou convidado. Engraçado como eu pensava vindo aqui pra casa: aquele assunto recorrente e gasto, e apesar de tudo não usado; pensava em como a gente não come mármore. Eu, pelo menos, não consigo comer mármore. Porque a gente tem um quê de Medusa, olhando pra algumas pessoas e transformando-as em estátuas. Depois disso não dá pra comer, pedra não se come. Carne. Outra teoria itinerante: aliás, interessante como o SE desencana em vésperas de viagens. Saber que vai pra longe deixa a gente mais livre pra tentar, sabe que as conseqüências não vão te alcançar mesmo. Não tão cedo. Acho que tá passando o efeito, ou pelo menos a ânsia. Vulgaridades. Agora vamos falar de vulgaridades? Não, não vamos. Porque, não sei se vocês concordam, ?vulgar? tem sempre alguma relação com sexo. Não na origem da palavra, de ?vulgo?, de ?comum?, que isso não tem essa acepção (boa essa). Mas... Esse assunto é chato. O gás tá acabando. O zumbido continua, uma vespa no crânio, ela não descansa nem pousa um segundo. Morre, morre. Gente, gente é um grande mistério. Na festa tinha uns argentinos. Eu nunca acreditei em argentino. Não que eu desconfie deles, eu não creio é que eles existem. Outro lugar, de outro lugar, de outra língua. Por quê? Pra quê? Ainda mais em espanhol, que quando eles falam parece que tão de brincadeira. A gente deve soar do mesmo jeito pra eles ? se bem que eles não existem. Gente, então. Sorriso, gente sorri, pra mim. Eu gosto. Mesmo do sorriso frouxo dos bêbados eventuais e anônimos. Prefiro os dos eventuais e chegados, gosto. Em abril. Em setembro um aceno frio e ontem (hoje já é ontem) um sorriso e uma graça. Vale! Noite Feliz por isso, descobri, por causa dos sorrisos. Parece até idiota, parece óbvio e parece confundir efeito com causa. Mas inverte isso, não foi a noite que pariu os sorrisos, nem o álcool, são os sorrisos que me deixaram feliz. O plural fica por conta do mundo moderno.
