Os filósofos dizem que a felicidade, 'estado simples e permanente', lembra Rousseau, não se confunde com os picos e vales, excessos e deficiências, que marcam a vida dos prazeres. Não gosto do relativo moralismo que aparece nessa crítica ao prazer, mas ser feliz é sem dúvida uma arte: lutar pelo seu desejo e saber do que abrir mão no mesmo desejo. Sintonia fina. (Renato Janine Ribeiro, professor de ética e filosofia na USP, na Folha de São Paulo de domingo passado).
Mas não acho que simplesmente distinguir prazer de felicidade seja moralista. Prazer tem muito mais de satisfação do que de felicidade. Essa só vem, e quando vem, como efeito colateral do prazer. Talvez a melancolia, a incerteza (e a indeferença) atuais tenham, infelizmente, muito a ver com a liberdade. E com a dificuldade que a gente tem de lidar com essa liberdade. Ser livre começa a ser quase um imperativo; paradoxalmente, uma imposição social que condena os que não ousam desfrutar de todos os prazeres possíveis, ofertados e (às vezes) ofertáveis. Exagero ainda, quem sabe, criar a expressão "escravos da liberdade"; mas dá pra notar que a total falta de restrições não traz o sorriso ou a paz aos rostos. Pode ser, sim, ainda um confronto entre os padrões que até então vigiam e os novos. Como se a liberdade ainda buscasse lugar como conceito, como se dentro das pessoas os valores "tradicionais" incutidos (ainda que inconscientes) ainda oferecessem certa resistência à novidade. Tal liberdade é recente. Mas também pode ser que a gente, corpo físico, limitado e finito, não possa aceitar e conviver, realmente, com a falta total de impedimentos. A alma, pra quem acredita nela, poderia ser livre nesse sentido. O ser que habita o corpo, não. Os prazeres são uma realidade inquestionável, são imediatos do corpo e do cérebro físico. Os prazeres dão satisfação (óbvio), e uma felicidade volátil. Sentimento que, por sua volubilidade, não é, realmente, felicidade. A felicidade é "estado simples e permanente". Atingir a tal "sintonia fina" mencionada exige exatamente abrir mão de desejos (e prazeres, quando concretizados) para chegar à felicidade. Isso implicaria, pelos padrões atuais, abrir mão de alguma das "liberdades"? Complicado.