junho 01, 2005

Tirei 10 em IED, ainda que não saiba o que significa IED.
Chegam já os equilibristas vestidos com túnicas lantejouladas de cor desconhecida, única hoje a absorver tantos os raios do sol como o luar. Esta cor tem por nome liberdade, e o céu irá estalar com todas suas auriflamas azuis e negras, pois pela primeira vez irá soprar um vento totalmente propício, e os que aí estíverem compreenderão que acabaram de fazer-se à vela e que todas as supostas viagens precedentes tinham sido apenas um logro. O pensamento alienado e as atrozes justas de nosso tempo serão olhadas com o mesmo olhar de comiseração mista de repugnância do capitão do brigue Argubs ao recolher os sobreviventes da Jangada da Medusa. E cada um se espantará ao considerar sem verificar os abismos superiores guardados por um dragão, que, bem ilumidado, era feito só com grilhões. Ei-los, já estão no alto. Jogaram a escada para longe, nada mais os retém. Sobre um tapete oblíquo, mais imponderável que um raio, dirigem-se a nós as que foram as sibilas. Da haste que elas formas com seu manto verde-amêndoa dilacerado com pedras e de seus cabelos desfeitos sai a rosácea cintilante que se balança sem peso, a flor enfim desabrochada da vida verdadeira. Todos os motivos anteriores são agora mesmo fulminados para derrisão, o lugar está livre, idealmente livre. O ponto de honra desloca-se à velocidade de um cometa que descreve simultaneamente estas duas linhas: a dança para escolha do outro sexo, a "parada" na intenção da galeria misteriosa dos recém-chegados, aos quais o homem acredita ter contas a prestar após sua morte. Fora disso, não sei se ele tem deveres. De cada feixe de fogos de artifício se destaca uma espiga que é preciso agarrar no ar: é a ocasião, é a aventura única, que se pode verificar, não estava inscrita em lugar algum, nem no fundo dos livros nem no olhar dos velhos marinheiros que não calculam mais a brisa senão abancados. Que valor tem uma submissão ao que outros promulgaram? É preciso que o homem escape desta liça ridícula que lhe prepararam: o pretenso real com a perspectiva de um real futuro, que não é nada melhor. Cada minuto pleno traz em si mesmo a negação de séculos de história capengante e cassada. Aqueles incumbidos de viravoltar em cima de nós estes flamejanes só podem fazê-lo com pura seiva.
(1º ato)

À tumba de Edgar Allan Poe

- Corvo, por que estás tão triste? Não me digas que nunca amais!
- Grrra! Bebi muito ontem. Nunca mais!