junho 12, 2004

Congênito
Crônicas são textos que não têm cura. Essa tiradinha infame pintou agora, e é muito possível que alguém já tenha pensado nisso. Óbvio. Só pra dizer que enchi o saco não só do poeta lírico, mas também da cronista. Disse pra ela que crônica é um "gênero menor". Ela deve ter olhado bem pra minha cara e pro meu estado de espírito e não se deu ao trabalho de contra-argumentar. Só disse: "não é". Aliás, só o fato de escrever "a cronista" já me soa estranho. Muito estranho, pra não dizer outra coisa, o anônimo que se auto-intitula escritor, poeta, cronista. Ou quem se apresenta como músico. É o tipo de coisa que não se escolhe ser. Tenho a clara impressão de que não dá pra um dia, depois de almoçar e escovar os dentes, sentar de novo na mesa da sala de jantar e assumir: "sou escritor". É o tipo de rótulo que só os outros podem colocar.
Valentines
Li Rubem Fonseca hoje, sabe? Quase briguei por causa dele numa dessas madrugadas piradas, tentando impor o gosto pelo Fonseca a um poeta lírico. Tenho essa péssima mania, de tentar impor gostos à força. Não dá certo. O cara é intenso, mas de uma intensidade mórbida. Não tem graça nem é maravilhoso, ótimo nem mesmo muito bom. Injustiça usar qualquer um desses adjetivos pra taxar o Fonseca. E se eu tivesse, agora, nos próximos quinze minutos, que escolher um estilo eu escolhia o dele. Mórbido e intenso. Ontem de novo veio a discussão sobre a disputa entre o nada e sentir. Não fui eu que comecei, não, ela veio com a hora. E não lembro quem venceu dessa vez. Foi antes da moça pegar na minha mão pra ver que eu roía as unhas. Mórbido, não a conhecia. Pô, só fico sabendo das coisas depois das três da manhã. Aliás, as revelações só aparecem pra mim ensopadas de álcool, numa língua mole que lembra um pouco o português, sabe? Sabe nada. Uma coisa muito útil a conversa, não? Eu devia ter descoberto ela mais cedo, naquela época que eu gostava de uma menina no colégio. Quando a gente está no colégio a gente "gosta". Mas ontem uma me contou que nunca sentia nada; a outra que só sentia por um. Não, nem tenta encaixar em algum perfil que essas são alheias. E o Rubem Fonseca é mórbido e o sexo nele é quase sempre uma coisa doentia, nunca explícito, mas sempre presente (coadjuvando). A violência sim, todo mundo concorda que a violência "pontua toda a sua obra". Tudo bem, não é uma violência fortuita, é a violência humana. Mas mesmo assim, não consigo não pensar no Rubem Fonseca agora.

junho 11, 2004

As pessoas daqui e os respectivos discos que as representam

Discos & Pessoas

Depois vou fazer mais uma com discos outros.

junho 10, 2004

Vertigem

------goldmine,
----stroke--------------rain
------it, -----it,
--- the princess
You-----stay

Velvet--------,
Naked--------chain
I'll----your-----volcano
-------------again and again
My---------------

Meu, tenho que dar uma olhada na garantia. E se vencer com 30 anos. Vai que quebra uma cabeça, arrebenta um rim, estraga um fígado, fura um pulmão. Enfisema. Mas eu nem fumo. Passar na concessionária e fazer um alinhamento, revisão dos 100 mil quilômetros. "Lamento, mas a nossa garantia não cobre sinistros causados por substâncias ilegais. Passar bem. Rá, rá, rá, rá! (risada tétrica)". No meu carro falta a maçaneta do lado direito, sabe lá o que já tá faltando em mim. "Vai ter que trazer a peça de São Paulo, demora pelo menos uns seis anos". Até lá já fodeu de vez, deixa pra lá. "Pois é, tá sacudindo um pouco quando anda, um tremor generalizado". O mecânico: "Isso é calafrio, acontece no dia seguinte à balada forte". "E tem jeito?". "Não". De manhã, no frio, custa a pegar. Um transeunte amigável: "É a álcool?". Eu: "Muito".
Eu disse ontem, a uma certa hora da madrugada pirada, que odeio poesia (tanto quanto a coca, acho). Disse pro poeta lírico: "quem não sabe se expressar escreve poesia". E o cara se defendeu: "ou quem escreve prosa é porque não sabe escrever poesia". E eu discordei cuspindo a réplica. Antes, ele mesmo concordou que também detesta a poesia. Mas a defendeu até a morte. Escape, muleta verbal - como a porra da droga é muleta química. "Nunca vou me afundar porque tenho estrutura, consciência", a gente dizia a uma certa hora da madrugada pirada. Não tenho a mínima certeza disso, não mesmo. Quem tem 20 tem certezas, sejam anos ou reais do treco. Mas a bala acaba, do mesmo jeito que (a casa d)os vinte anos.
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken! - quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!'
Quoth the raven, `Nevermore!'

junho 08, 2004

Tiro de metra
- Como foi o gol do Brasil?
Pergunta razoável? Na frente das mesas, no fundo do bar, num telão de mais de dois metros, o jogo era projetado em todas as cores. O Ronaldo passou, na entrada da área, pro Kaká, que, de primeira, deu um toque de calcanhar pro Luis Fabiano completar pra rede. Impedido, confirmou o Arnaldo depois. Mas o juiz não achou. 1 a 0. Todo mundo tinha visto, todo mundo tinha vibrado.
E eu fiquei sem entender direito se era aquilo mesmo que ele queria saber. Fiz cara de "não entendi".
- Como foi o gol do Brasil? - ele repetiu, como se tivesse acabado de sentar na mesa.
O cara tava o tempo todo bem na minha frente, não era eu o louco. Ele tava na cadeira da frente e tinha visto o gol como todo mundo no bar. A não ser que ele tivesse fechado os olhos exatamente no instante do gol. Ou, pior, se tivesse dormido. Com aqueles dois metros de imagem logo ali, o brilho do telão, o barulho da caixa de som. Não, nada de sono. Os olhos da cara tavam bem abertos.
Bebi mais um gole.
Olhei pra cara dele - virado pra mim e com a nuca voltada pro telão. Os olhos falavam sério, ou pelo menos pretendiam. Parecia até um pouco irritado com a minha demora. Eu disse, meio ressabiado:
- O Ronaldo passou pro Kaká (etc).
- Ah.
Dez minutos depois. Ele se vira de novo pra trás:
- Quer dar um *? - convida. Silêncio de dois segundos - Algum de vocês quer dar um *?
- Valeu.
Ele sai. Volta depois. Depois sai de novo.
Dizem que o treco (léxico do S.) procura a gente, convida sem cerimônia. Procura. Ninguém gosta de se ferrar sozinho.