junho 03, 2004

Fog
Pra quem tem uns três ou quatro meses da experiência, (re)conheci o pessoal que tá nessa há mais de dez anos - quinze, vinte. Sem parar. De fora todos parecem normais, um tem três filhos, outro tá pra ganhar a primeira. Ontem de madrugada tava uma neblina muito forte, das que dá pra chamar de "cerração". Ambiente Londrino, e os três ali na varanda do bar, a porta quase pra fechar. Cada vez tem rolado uma novidade. Ontem foi a maior bandeira, na ponta da chave do carro - como se a chave fosse uma colher com uma pitada de sal. É até melhor do que o convencional, sem ter que esperar. Mas, de novo, pouco efeito. E depois, quatro e tantos da manhã, dentro do carro já estacionado nas cercanias da Quintino, uma viatura entra na contramão e me joga um farol alto no rosto. Muita neblina, mal se via um metro pra frente. Do jeito que a minha cabeça tava, nem tinha como encanar, ficar com medo. Dentro, limpeza, só pouca coisa no bolso. O PM motorista emparelhou vidro com vidro. Olhou pra dentro. Trocamos sinais de positivo ("jóia") e o carro cinza e amarelo seguiu o caminho.

junho 02, 2004

Caralho. Será que um dia eu vou deixar de me impressionar com essas histórias que eu escuto? Ou será que algum dia eu já vou ter escutado de tudo? Engraçado é que bate e abala quando eu ouço falar, nunca quando eu vejo. Então pode ser que seja a minha imaginação suja que sempre "apimenta" um pouco mais as situações. O problema, talvez, não seja essa juventude de hoje, mas o modo estranho que minha cabeça funciona. Ou será que tenho ouvido mentiras e histórias aumentadas?

maio 31, 2004

Renato, você precisa me entregar o disquete com o trabalho o mais rápido possível.

maio 30, 2004

Quartos
O mundo ia ser possível se não houvesse mundo.
Quando o mundo é o quarto não existe mundo.
O quarto é possível, já não existe o mundo.
Os sons entram no quarto, mas não existe cão, carro ou toca-cds.
O espaço na parede é moldura de ferro, um quadro com nesga
de estrelas (mas não existem estrelas).
Existem, sim, histórias da Carochinha sobre outros,
sublimadas(os) com o suor.
O mundo seria possível se o seu despertador não tocasse.
Desliga o alarme e o tempo pára,
porque amanhã era domingo.
Mora na filosofia
Entre a dor e o nada, eu prefiro a dor. Quem escreveu isso foi William Faulkner, conhece? A frase orginal em inglês tem um significado um pouco diferente. Mas foi assim que traduziram em um filme que vi faz muito tempo. "Entre a dor e o nada, eu prefiro a dor". A garota, francesa, citava essa frase; e o cara, americano, respondia: "Pra mim é tudo ou nada, baby". Canastrão, claro. No mundo real, Faulkner faz muito mais sentido do que aquele cawboy fã de Elvis Presley. Não só porque raríssimos são os momentos em que dá pra radicalizar tanto (ou tudo ou nada), mas também pelo fato dele, Faulkner, escolher a dor. Tudo bem que, na frase, ele tem que escolher entre a dor e o nada, só duas opções. Mas o escritor, ao bolar o texto, optou pela dor - entre centenas de outros sentimentos. O contraponto para o nada, na vida e no humano, só pode ser a dor. Porque, assim como o nada é certo, onipresente e tem que ser constantemente preenchido, a única certeza (de sentimento) que temos é a dor. Naquela hora da madrugada ou um pouco antes dos olhos se fecharem pra dormir, a dor vai bater - com mais ou menos força, mas vai. Acho que essa dor talvez não seja um sofrimento puro, mas uma dor inerente a qualquer sentimento nosso. "Mora na filosofia, pra que rimar amor e dor?", faz um pouco desse sentido. Eu pelo menos tenho sempre que a felicidade de agora vai ser paga com alguma dor no futuro. E às vezes tento fugir dessa dor, presente em cada sentimento, destruindo tudo. E renegando inclusive as boas sensações. Já que vai foder mais tarde, melhor estraçalhar tudo de uma vez agora. Os extremos, a falta de limites - isso também serve pra fugir da dor. Atuando num ritmo vertiginoso, leviano e volúvel, a gente tem a ilusão de que foge da dor porque anda mais rápido do que ela. Hoje, do jeito que vai, entre o nada e a dor, fico com nada.