Bruno, você pode se inspirar no texto abaixo pra inovar no seu TCC sobre formas de edição no radiojornalismo esportivo. Se bem que... radiojornalismo esportivo não tem edição, é tudo ao vivo. Acho que alguém se fodeu aqui.
julho 30, 2005
julho 26, 2005
-- Si può? - cantou, estertórea, a voz de Otávio. Eduardo voltou-se. A figura volumosa do filósofo tapava o retângulo da porta. Essa presença foi um alívio para os três. O vanguardista avançou sorridente. Trazia sob o braço uma pasta, "Pux! Estavam conspirando? Que caras funerárias..." Jarbas ergueu a cabeça festivo. Sua alegria era falsa. Na sua voz havia constrangimento.
-- Alô, príncipe tártaro! Que ventos trazem você aqui?
Otávio sentara-se rumorosamente numa poltrona. Seus noventa quilos fizeram-na arriar. Crac!
-- Vim falar com você. VVenho propor à sua rádio um programa, ou melhor, seis séries de quinze minutos educativos e culturais. coisa que, sozinha, é bastante para lançar uma estação.
O diretor literário da emissora levantou-se. Chegou até a poltrona do filósofo. Sentou-se no espaldar e, simulando abraçá-lo, deu uma formidável palmada nas costas redondas do amigo.
-- Vamos ver o que secretou a cachola deste cetáceo. Deve ser coisa de siderizar o radiouvinte. Uma irradiação pelo sistema de Braile para surdos de nascença...
Otávio conservou uma caratonha sisuda.
-- É coisa séria.. inédita... Coisa que nunca se fez.
Otávio, quando explicava seus absurdos, fazia-o com uma solenidade quase litúrgica. Ele de antemão sabia que nada do que propunha seria levado a sério. Isso era o de menos. O que queria era espantar. Bastava-lhe que corresse na cidade a notícia de um novo absurdo engendrado pela sua fantasia. Sua fama nutria-se disso: "Um eterno revolucionário..." Abriu a pasta. Tirou dali papéis datilografados, esquemas, diagramas, desenhos, estatísticas.
-- Estudei o assunto sob todos os ângulos. Fiz cálculos demográficos para verificar quantos ouvintes conterá cada irradiação. Pus em equação as reações psicológicas dos vários grupos de escutantes.
Jarbas recuperou o bom humor.
-- Bravo! Não é à toa que você é um gênio. Vamos ver...
Com método - porque Otávio era meticulosamente ordenado - foi pondo em cima da mesa as várias peças de seu plano.
-- Vamos! Troque isso em miúdos. Que é?
Cotti e Eduardo haviam-se aproximado da mesa atraídos pelos rabiscos, desenhos, cálculos algébricos que o filósofo alinhara, com fleuma impassível, entre o berço de mata-borrão e o tinteiro.
-- Aqui está - suspirou, ola]hando para seus documentos. - Isto é o fruto de vários meses de meditação e observação. corri os vários bairros para estudar os vários tipos de ouvintes. Cheguei a conclusões imprevistas que reuni para uma conferência que pronunciarei no Círculo de Arte.
-- Mas, vamos homem! Do que se trata?
-- Disto. A primeira irradiação constará de quinze minutos de silêncio absoluto.
Cotti não segurou a gargalhada. Otávio olhou-o furioso.
-- O silêncio é o negativo do som. Destino-o, pois, aos ouvintes para que gravem nele as músicas recalcadasque trazem no subconsciente. É a libertação potencial do harmônico individual, uma sublimação, enfim, o surrealismo acústico. Novo! Absolutamente novo!
Jarbas não ria. Não queria oferecer essa vitória ao exibicionista.
- A segunda irradiação vai ser composta de gritos livres. Quinze negros de bairro dos mais broncos poderão urrar, gemer, ganir à vontado junto ao microfone. Serão o desencadeamento musical do instinto e da combinação casual dos sons interjeitivos. Isso é para se obter o que denomino "a sinfonia animal", ou seja, a pura música primária, a mais representativa, a mais documental, a mais expressional de todas as músicas... Que tal?
Eduardo chegou a esquecer a sua dor. Jarbas divertia-se. Otávio pegara uma das folhas do seu dossier e mostrava um gráfico:
-- Neste gráfico estão assinaladas todas as possibilidades de modulação desse programa. Veja as c urvas, Neste ponto, os negros, estimulados uns pelos outros, atingirão o clímax. Teremos, então, o uníssono monocórdico prestando-se a experiência para estudo do máximo ascensional dos crescendos... isso, porém, é com os mestres da teoria musical...
-- Interessante... Interessante - estimulava Jarbas.
Orgulhoso com o sucesso, Otávio largou o gráfico. pegou noutra folha de papel.
-- Aqui está o plano do terceiro programa. Como você vê, organizei tudo em seqüência gradativa ascendente. Neste, já entram instrumentos musicais conjugados com vozes humanas e ruídos naturais. O Cotti com o piano e Eduardo com seu canto poderão tomar parte. O resto será obtido com latas de querosene, um sino, um galo, duas bombas dessas pequenas que os moleques soltam nas festas de São João. Será a combinação da música racionalizada com ruídos artificiais e naturais. A integração do complexo sonoro. Uma experiência para a descoberta das novas combinações cromáticas de alto alcance para o enriquecimento das possibilidades orquestrais.. Que tal?
- Menotti del Picchia, Salomé (1939)
-- Alô, príncipe tártaro! Que ventos trazem você aqui?
Otávio sentara-se rumorosamente numa poltrona. Seus noventa quilos fizeram-na arriar. Crac!
-- Vim falar com você. VVenho propor à sua rádio um programa, ou melhor, seis séries de quinze minutos educativos e culturais. coisa que, sozinha, é bastante para lançar uma estação.
O diretor literário da emissora levantou-se. Chegou até a poltrona do filósofo. Sentou-se no espaldar e, simulando abraçá-lo, deu uma formidável palmada nas costas redondas do amigo.
-- Vamos ver o que secretou a cachola deste cetáceo. Deve ser coisa de siderizar o radiouvinte. Uma irradiação pelo sistema de Braile para surdos de nascença...
Otávio conservou uma caratonha sisuda.
-- É coisa séria.. inédita... Coisa que nunca se fez.
Otávio, quando explicava seus absurdos, fazia-o com uma solenidade quase litúrgica. Ele de antemão sabia que nada do que propunha seria levado a sério. Isso era o de menos. O que queria era espantar. Bastava-lhe que corresse na cidade a notícia de um novo absurdo engendrado pela sua fantasia. Sua fama nutria-se disso: "Um eterno revolucionário..." Abriu a pasta. Tirou dali papéis datilografados, esquemas, diagramas, desenhos, estatísticas.
-- Estudei o assunto sob todos os ângulos. Fiz cálculos demográficos para verificar quantos ouvintes conterá cada irradiação. Pus em equação as reações psicológicas dos vários grupos de escutantes.
Jarbas recuperou o bom humor.
-- Bravo! Não é à toa que você é um gênio. Vamos ver...
Com método - porque Otávio era meticulosamente ordenado - foi pondo em cima da mesa as várias peças de seu plano.
-- Vamos! Troque isso em miúdos. Que é?
Cotti e Eduardo haviam-se aproximado da mesa atraídos pelos rabiscos, desenhos, cálculos algébricos que o filósofo alinhara, com fleuma impassível, entre o berço de mata-borrão e o tinteiro.
-- Aqui está - suspirou, ola]hando para seus documentos. - Isto é o fruto de vários meses de meditação e observação. corri os vários bairros para estudar os vários tipos de ouvintes. Cheguei a conclusões imprevistas que reuni para uma conferência que pronunciarei no Círculo de Arte.
-- Mas, vamos homem! Do que se trata?
-- Disto. A primeira irradiação constará de quinze minutos de silêncio absoluto.
Cotti não segurou a gargalhada. Otávio olhou-o furioso.
-- O silêncio é o negativo do som. Destino-o, pois, aos ouvintes para que gravem nele as músicas recalcadasque trazem no subconsciente. É a libertação potencial do harmônico individual, uma sublimação, enfim, o surrealismo acústico. Novo! Absolutamente novo!
Jarbas não ria. Não queria oferecer essa vitória ao exibicionista.
- A segunda irradiação vai ser composta de gritos livres. Quinze negros de bairro dos mais broncos poderão urrar, gemer, ganir à vontado junto ao microfone. Serão o desencadeamento musical do instinto e da combinação casual dos sons interjeitivos. Isso é para se obter o que denomino "a sinfonia animal", ou seja, a pura música primária, a mais representativa, a mais documental, a mais expressional de todas as músicas... Que tal?
Eduardo chegou a esquecer a sua dor. Jarbas divertia-se. Otávio pegara uma das folhas do seu dossier e mostrava um gráfico:
-- Neste gráfico estão assinaladas todas as possibilidades de modulação desse programa. Veja as c urvas, Neste ponto, os negros, estimulados uns pelos outros, atingirão o clímax. Teremos, então, o uníssono monocórdico prestando-se a experiência para estudo do máximo ascensional dos crescendos... isso, porém, é com os mestres da teoria musical...
-- Interessante... Interessante - estimulava Jarbas.
Orgulhoso com o sucesso, Otávio largou o gráfico. pegou noutra folha de papel.
-- Aqui está o plano do terceiro programa. Como você vê, organizei tudo em seqüência gradativa ascendente. Neste, já entram instrumentos musicais conjugados com vozes humanas e ruídos naturais. O Cotti com o piano e Eduardo com seu canto poderão tomar parte. O resto será obtido com latas de querosene, um sino, um galo, duas bombas dessas pequenas que os moleques soltam nas festas de São João. Será a combinação da música racionalizada com ruídos artificiais e naturais. A integração do complexo sonoro. Uma experiência para a descoberta das novas combinações cromáticas de alto alcance para o enriquecimento das possibilidades orquestrais.. Que tal?
- Menotti del Picchia, Salomé (1939)
