- I -
Bar, inverno, frio, meia-noite, conhaque. Eu: "Tudo à merda?", ela (confirmando): "mandar tudo à merda". Assim mesmo, sem ponto de exclamação. Indignação letárgica, saca? Mas é difícil mandar tudo à puta-que-pariu quando o coração tá quente. Por isso eu não concordei (intimamente) com ela na mesma hora. Enquanto ela passava em frente à mesa como um gato pequeno atrás de uma bola. Em flashes, de um lado pro outro do bar, sem parar. Eu me imaginava com uma daquelas espingardas de pressão, de estande de tiro ao pato, e ela como um dos alvos móveis. De cá pra lá, de lá pra cá, daqui pra ali. Um tiro só, certeiro, pra derrubá-la de uma vez, pega no vôo entre uma mesa e outra. Só assim pra ela parar e pra parar a minha aflição. Abordagem drástica. Minha voz era fraca demais pra pará-la só com o som. De cá pra lá, de lá pra cá, daqui pra ali - minha cabeça dói.