julho 31, 2004

Brrrrrrrr... que frio, estou vendo a névoa que cobre a cidade pela janela do meu quarto e ouvindo o primeiro disco do Guilherme Arantes, de 76. Um belo raiar.

Na neblina a cidade amanheceu
sonolenta como os últimos boêmios
e os primeiros trabalhadores matinais
com seus gorros, capotões e cachecóis

A neblina dá uma certa imprecisão
a paisagem fica sem definição
as capelas e os velhos casarões
na neblina ficam sobrenaturais

Qual, qual de vocês não acha belo
quando ela desce
quando ela deixa tudo translúcido?

Na neblina os rochedos pelo mar
são terríveis para quem fôr navegar
o aeroporto, então, acende os faróis
e não descem, e não sobem aviões.

Qual, qual de vocês não acha belo
quando ela desce,
quando ela deixa tudo translúcido?

julho 30, 2004

A barra pesada do Pena Branca
Ontem comprei no sebo um livro chamado "Barra Pesada" (1977, 288 páginas). Aquele que custava 5 reais e eu "levei" por 4 - o dinheiro que eu tinha no bolso. "Depois você me traz um real, a gente só dá desconto pra livro a partir de 10 reais", aliviou a moça do caixa. Não sei se ela conta realmente com que eu passe lá pra deixar a diferença ou disse só pra marcar a política da empresa. Vou levar o dinheiro, sim, aproveito pra andar um pouco. Quando li a contracapa fiquei querendo o livro, acho até que voltava em casa pra buscar o que faltava no preço. Mas não precisou (na hora). É daquelas edições do Pasquim, que, aliás, praticamente só tem coisa boa. Até onde eu li, é uma entrevista do pessoal do Pasquim com um repórter policial chamado Octávio Ribeiro, o Pena Branca, sobre a atuação dele em diversos jornais nas décadas de 60 e 70. A barra pesada vem das matérias que ele cobria. Os crimes mais escabrosos do Rio de Janeiro e São Paulo da época. O perfil dos bandidos mais famosos (Mineirinho, Lúcio Flávio, Caveirinha), a convivência meio promíscua com a polícia, o dia-a-dia. Um exemplo. Depois de ralar um tanto, ele ficou amigo (antes de existir Caco Barcelos) do Mineirinho, um dos mais procurados pela polícia carioca no final dos 60. E conseguiu a entrevista exclusiva. A fala do Pena Branca é cheia de jargão de delegacia. "Era um bandido sacana, adorado pelas mulheres na cama. Ao encarar Perpétuo trocou valentia por covardia, a lama ficou com vergonha. A maioria dos malandros se entregou sem broncas ou tiroteio, fera virou cordeiro". Fala dos "ossos de Dana de Teffé" (agora entendi por que o Cony insiste, tão chato, no assunto), o sumiço do menino Carlinhos. Tudo que hoje é história o livro traz quente. Jornalista criado na rua, como a gente escuta na faculdade. É livro gostoso de ler. Ah, o apelido de "Pena Branca" era porque o cara tinha uma mecha natural de cabelo claro em cima da testa.

Barra Pesada é de 1977. O site da Istoé diz que Octávio Ribeiro, "um dos melhores repórteres policiais que o Brasil já conheceu", morreu de "causas naturais", em 1986, aos 54 anos. Só fiquei querendo saber por que é "natural" morrer aos 54 anos.

***

Sutileza
Fiquei com vontade de assistir o Farenheit 911. Parece que estreou hoje. Muito difícil me interessar por um filme que tá no cinema. Talvez por ser documentário. Será que eu vou ou espero? Daqui uns dias, se ainda tiver em cartaz, as filas devem estar bem menores.
será que quando você começa a perceber alguns problemas em você mesmo, significa que eles vão ser resolvidos?
é, sinto que o pessoal daqui anda ficando cada vez mais sincero. isso é bom. as vezes eu acho que quem parece que é sincero não é sincero e quem não parece que é sincero é sincero. o duro é ficar escrevendo essas coisas enqunato tem alguém editando uma matéria ali do lado, ou fazendo uma nota ali atrás. acho que estou cansado por hoje, e não são nem 2 da tarde. vou tentar fugir. é só inventar alguma coisa pouco sincera. como sempre.
O paciente apresentou um leve retrocesso. Mas o quadro inspira poucos cuidados porque, afinal, na data de hoje ele conseguiu socializar com mais de um(a) desconhecido(a). Cumpre destacar a iniciativa de pedir desconto de um real no sebo, em que pese a reticência de alguns minutos antes de se dirigir ao caixa. Registre-se que conseguiu ir para a casa com o livro, mesmo tendo no bolso quantia menor do que o preço indicado (sic). Ainda presente um quadro de alegria inexplicável e tranqüilidade não peculiar. Recomenda-se deixar sob observação moderada e administrar, de hora em hora, as drogas indicadas no prontuário. Londrina, madrugada de 30 de julho de 2004.

julho 29, 2004

Dia-bettes
Não gosto de beber sozinho em casa. Mas agora me deu vontade de chacoalhar a consciência e transformar em alegria essa ponta de angústia. Minha "melancolia" leve podia ser um caldo grosso e escuro, mistura de dor e alegria. Como naquelas experiências de Telecurso, esse caldo preto reage com álcool. Da reação, ia decantar a dor e ficar uma água pura e clara. Felicidade tonta, como a das madrugadas deste final de semana, quando a noite me deixou ficar, excepcionalmente, parado na beirada do balcão ou parado na porta, curtindo o ambiente e as pessoas. Sem o ritmo frenético de sempre. Ficar alegre por tratar de assuntos bobos e instigantes, como a tatuagem que eu disse que vou fazer mas, provável, nunca chegue a existir de verdade. Lembranças boas dos últimos dias, parecem com um arranhão - que vem arder depois. Um dos efeitos colaterais da intensidade: quando a gente pára um pouco, as sensações começam a rodopiar, como se a cabeça não se conforme com uma noite em casa. "Tô contente, alguma coisa não tá certa", acho que é a frase que fica piscando. Lembranças boas são traiçoeiras quando te pegam sozinho. Te invadem a circulação e te apertam o peito. Será medo de que acabe? Medo de que não volte? Ou medo de que seja ilusão? Na hora eu nunca me dou conta de que estou contente. Talvez o olho me denuncie pra quem tá na minha frente. Mas eu não percebo. Demora alguns dias pra eu sacar e ficar puto da vida comigo por não ter aproveitado direito. Depois fico aqui, fazendo contabilidade, recontando cada centavo de agrado.

julho 28, 2004

Lindo isso.  Olhem esse.
Ontem fui no Valentino ver um pessoal declamando poesia, olha só. Os "Benditos Energúmenos", sabe?, duas guitarras e dois "declamantes". Fui lá mesmo pra conferir a apresentação. Se fosse só pelo bar, podia ter chegado mais tarde e evitado de pagar os 3 reais da entrada. Nove e meia na porta. Não gostei muito, poesia não me atrai mesmo. Nem consigo prestar muita atenção no sentido das palavras. Conversei (sim, conversei) com o Zé Luis, do Daime. Conheci ele ontem, mas a prosa foi "literária". De como poesia pode ser chata, de como é bom escrever poesia mas como é tão chato escutar e ler poesia dos outros (isso foi ele quem disse, não me acusa de chato). Mais uma vez, o que valeu foi a música, que segurou a onda e deixou aquilo um pouco mais escutável. O bar tava divertido, calmo, de boa. Noite agradável. Eu podia citar aquele chileno, alguma coisa sobre o prazer da ausência, ou a presença distante - mas não vou, não. Porque eu não gosto de poesia, né?

julho 27, 2004

Dans une épouse, je desirerais
Ce qu'on trouve toujours chez les putains -
Les traits du Désir assouvi
.
E não me venham com chorumelas.
Sei que eu devia ligar só pro que realmente importa. Mas não dá pra se livrar de mais de dois mil anos de uma hora pra outra. Um século por semana tá bom?
Recusa de submissão à lei, à fé e mesmo ao Rei, o barroco é insurrecional. Mas quando o ilogismo, o irracional e o passional tornam-se, por sua vez, a lei, é o classicismo ele mesmo que volta a ser subversivo.
Que a verdade seja dita: Legião Urbana (pelo menos os primeiros discos) é foda e vocês não.
Besouros
Beatles são uma preferência, um gosto, mas não é nada parecido com fixação. Não sou um super-fã, nunca faria fã-clube de nada. Gosto de música. Em geral e sem preconceitos. O que rola é uma preguiça de conhecer coisas novas, outra coisa que eu tô aprendendo a perder. Quando era mais novo (bem mais novo) tava tudo certo pra me aprofundar em música. Mas por algum motivo não rolou, ficou só a paixão. E uns quatro ou cinco instrumentos mal-tocados. Em pauta eu sou um analfabeto funcional, tipo aqueles que ficam declamando sílaba por sílaba ("u-vê-á, uva"). No meu caso é ("dó, fá sustenido... não, sol sustenido..."). Feio. Tive uma má formação congênita, um pedaço meu que ficou meio que pelo caminho. Mas nem precisa dizer que eu não tinha saco de ficar duas horas por dia fazendo escalas (pra cima, pra baixo) e exercícios repetitivos. Como eu tinha facilidade pra tirar as coisas de ouvido, eu esperava o professor tocar uma ou duas vezes - daí ficava bem mais mole. E passava a madrugada ouvindo os LPs de um porção de estilos. Era depois da uma da manhã que eu ficava, doze ou treze anos, na sala escura escutando o que hoje eu gosto. Nunca senti solidão nessas noites, e, lembrando agora, percebo que gostava muito desses momentos. Música chiada no toca-discos, escuro, silêncio na rua. Horas e horas. Isso não tem muito a ver com meu ritmo atual, mas explica uma porção de coisas.
Lyrics
Beatles são a minha trilha, não tem como escapar. Das músicas mais bonitas tem Across the Universe, que não fala de amor (não desse) mas de uma dimensão "cósmica". A letra é bonita, a melodia mais ainda. Nunca me importei muito e continuo não me importando com "mensagens" que as canções querem passar. Tem aquelas meladas do Paul McCartney, que eu não curto muito, tipo Here, There and Everywere, Michelle, For no One. Mas também são bonitas. Julia é uma das melhores, só que também não é de amor (não desse amor). Foi feita pelo John Lennon para a mãe, que morreu quando ele era pequeno. Because chega a ser impressionante (Love is old, love is new/love is all, love is you). Dear Prudence é madura. You never give me Your Money é irônica. O ritmo de Girl é meio fossa, não rola. Goodnight é boa pra sussurrar de noite, pena que já foi usada. I Will, simplezinha, do Paul MaCartney, mas eficiente. Curto também algumas ingênuas da primeira fase. I need you (you don't realize how much I need you...) é bem legal. I'll Follow the Sun é uma das minhas preferidas nesse estilo (Some day, you'll know/I was the one/ But tomorrow may rain, so I'll follow the sun), ótimo isso, e melhora bem mais com a melodia. Do George Harrison tem I Want to Tell You, que diz muito (I want to tell you/ my head is filled with things to say/ When you're here all those words, they seem to slip away), pois é.

julho 26, 2004

Guia 4 rodas
Deixa eu explicar uma coisa. Não entendo quase nada desse negócio de relacionamentos, mesmo já tendo tido namoros razoavelmente longos (e curtos). Limitação natural - já deve ter percebido - pouca propensão social. E quando eu digo relacionamentos, entenda da forma mais abrangente possível. Não só com uma garota, mas com amigos e pessoas em geral. O convívio social, pra mim, é mais ou menos que nem a matemática pra alguns. Um mistério, que eu venho tentando desvendar aos poucos. Esses dias ouvi a pergunta se eu tinha "fobia de gente". É um pouco de exagero, claro, mas a essência é mais ou menos essa. Tanto que durante muito tempo, na época que deveria ter sido de baladas e outras coisas, preferia ficar em casa. Por um lado foi ótimo, porque lia muito (muito!) mais do que hoje. Mas não pratiquei as artes da conversa, do xaveco e da postura. Não que eu não goste de conversar ou do convívio (quem me conhece um pouco sabe que gosto), mas ainda derrapo em alguns passos, como a abordagem e as primeiras palavras. Principalmente quando a outra pessoa não é (aparentemente) muito receptiva. Lembra do impasse? Claro que lembra. Mas tô aprendendo. Muita coisa tem sido novidade (acho que eu devia curtir mais essas "descobertas"). Às vezes as coisas acontecem muito ao mesmo tempo. Não sou refratário, ou calado por opção - é o modo que eu encontrei (o único) pra me virar enquanto assimilo as coisas. Claro que uma porção de gente entende essa postura de outro modo. Mas o que é que eu vou fazer? Me incomoda, sim, não dizer certas coisas. Tudo fica mais difícil por causa da teimosia. "Descomplica", já ouvi esse conselho uma porção de vezes. Mas a cabeça-dura atrapalha. Tem que levar martelada, pra quebrar a teimosia, esfarelar os valores empoeirados e desfazer os nós inúteis. Tá funcionando, mesmo com os arranhões.
Felicidade química, será essa a única? Saudades! (se é que você me entende)

julho 25, 2004

Pra mim só drogas e rock'n roll, s'il vous plait. Puta que o pariu, treco complicado do caralho.